Aldenor Ferreira¹
Lúcio Carril²
Marcos Maurício³
Descobrimos, enfim, qual é o verdadeiro problema da Amazônia. Não é a pobreza, não é o isolamento de populações inteiras, não é a ausência histórica de infraestrutura básica. O problema são eles: os microrganismos ofendidos do solo amazônico, criaturas sensíveis, recatadas e profundamente apegadas ao barro original onde nasceram.
Segundo o novo apocalipse científico em circulação na grande mídia nacional, esses microrganismos vivem há séculos tranquilamente no chão da floresta, em harmonia com antas, onças, indígenas, ribeirinhos, motosserras ilegais, garimpos clandestinos e pistas de pouso improvisadas. Nada disso os incomoda. O que realmente os enfurece e desperta sua fúria latente é o asfalto.
Sim, o asfalto.
Esses microrganismos não se deslocam por trilhas, não se manifestam por rios, não são transportados pelas águas da chuva, não pegam carona em botas, pneus, caminhões de madeira ilegal ou helicópteros clandestinos. Eles aguardam, pacientes e organizados, a pavimentação oficial. Só então, civilizadamente, decidirão atacar a humanidade.
É como se os microrganismos tivessem desenvolvido consciência política. Nesse sentido, perguntamos: estariam eles apenas esperando o licenciamento ambiental para se manifestar? Ou seriam, talvez, microrganismos seletivos, que só se sentem ameaçados quando o Estado brasileiro tenta integrar o território nacional?
Caixa de Pandora biológica
O estudo apocalíptico em circulação, financiado com dinheiro público, apresenta uma tese simples, ainda que genial em sua ousadia: se o “trecho do meio” da BR-319 for asfaltado, uma espécie de caixa de Pandora biológica se abrirá. Microrganismos até então “isolados” – como se o solo amazônico fosse uma redoma de vidro esterilizada – entrarão em contato com humanos e, imediatamente, o mundo estará em risco.
Curiosamente, esses mesmos microrganismos não parecem ter apresentado qualquer problema relevante ao longo de décadas de ocupação e circulação humana na região atravessada pela BR-319, desde sua abertura original, com tráfego contínuo – ainda que precário – de pessoas, mercadorias e animais, além da abertura de ramais ilegais. Nada disso os sensibilizou. Mas agora, com o asfalto, tudo muda.
O tal estudo em circulação, ao menos para nós, deve ser colocado imediatamente sob rasura. Com a lente das Ciências Sociais aplicadas, é fácil perceber que a referida pesquisa não passa de uma narrativa travestida de ciência. Aliás, uma ciência com “ética rodoviária”, registre-se.
Quando isso ocorre, a ciência sofre um deslocamento epistemológico, deixando de investigar riscos reais, contextualizados, modelados, comparados e empiricamente mensuráveis para produzir pânico moral a partir do terror ambiental, onde qualquer intervenção humana passa a ser automaticamente associada a um colapso civilizatório iminente.
Pavimentou, acabou!
Nesse contexto, não importa a escala, não importa a evidência histórica, não importa o contexto social: pavimentou, acabou! É uma ciência que abandona a análise e abraça o alarmismo; que deixa a epidemiologia para flertar com o roteiro de filme B de catástrofe.
Nesse ponto, o discurso deixa de ser científico e passa a ser ideológico. Não no sentido raso da palavra, mas no sentido profundo: uma visão de mundo que naturaliza o isolamento, romantiza a precariedade e transforma a ausência de políticas públicas em virtude ambiental.
A Amazônia, mais uma vez, é apresentada como um espaço que deve permanecer intocado, desde que isso não afete quem produziu o tal “estudo”, quem o publica ou quem defende essa tese a milhares de quilômetros de distância.
Geralmente, os arautos do apocalipse vivem em cidades plenamente integradas, com estradas asfaltadas, aeroportos, hospitais, supermercados, internet de alta velocidade e equipamentos públicos que asseguram sua própria qualidade de vida.
Se levássemos essa lógica às últimas consequências, o correto seria interditar qualquer forma de circulação humana na região. Afinal, nunca se sabe que microrganismo pode se ofender com um porto, um aeroporto, uma ponte, um barco, uma escola ou um posto de saúde construídos por perto.
A ciência, quando se divorcia do bom senso, não ilumina, assusta. E quando o medo substitui a razão, o debate público perde densidade e a sociedade perde a capacidade de decidir com equilíbrio.
Considerações finais
A BR-319 merece discussão séria, dados sólidos, avaliação de impactos reais e políticas de mitigação responsáveis. O que ela não merece é virar palco de uma distopia microbiológica onde o asfalto assume o papel de anticristo ecológico e o Brasil é convidado, mais uma vez, a não fazer nada em nome de tudo.
O que está em jogo, portanto, não é a saúde pública, mas uma concepção de Amazônia que só se sustenta enquanto permanece isolada. Uma visão que transforma a ausência de estrada em virtude moral e o atraso em proteção ambiental. Quando a ciência passa a justificar o imobilismo por meio de hipóteses extremas, ela deixa de esclarecer e passa a interditar o debate.
É necessário destacar, ainda, o óbvio: a supressão da cobertura vegetal de floresta primária ocorreu quando da construção da rodovia, iniciada em 1968 e oficialmente inaugurada em 27 de março de 1976, já então totalmente asfaltada em seus 885 quilômetros.
Mesmo considerando a restrição ao tráfego interestadual, imposta a partir de 1988, bem como a reabertura ocorrida em 2015, e admitindo a supressão parcial de áreas de floresta secundária, não houve, no passado, evidências de que essas intervenções humanas tenham colocado a população em contato com novas linhagens de vírus e bactérias de potencial patogênico pouco conhecido.
Por fim, é preciso reforçar que a rodovia BR-319 encontra-se aberta ao tráfego interestadual, ainda que em condições precárias no segmento central, e continua a desempenhar papel relevante como vetor de mobilidade da população. Ainda assim, a pesquisa de tom alarmista sugere que vírus e bactérias “dorminhocos” somente despertariam com a chegada do asfalto.
¹ Sociólogo
² Sociolólogo
³ Advogado e Engenheiro
Artigo publicado originalmente no portal BNC (bncamazonas.com.br) em27/01/2026 às 07h49.
Ilustração: IA








